Valter, estudante de engenharia naval da
Universidade de Turku, na Finlândia, dá seu depoimento sobre os seis meses em
que viveu no Recife e estudou na Universidade Federal de Pernambuco. [traduzido
por mim do inglês para o português]
"Eu
sou Valter Vesala, um finlandês de Turku. Bom, não originalmente de Turku, mas
eu comecei a estudar lá em 2012. Aproximadamente um mês antes dos meus estudos
começarem, eu decidi me inscrever para um curso básico de Língua Portuguesa. Pouco
depois, eu conheci alguns estudantes intercambistas do Recife e adicionei a
cidade à minha lista de possíveis lugares para fazer intercâmbio. Fiz dois
níveis de Português e depois comecei a estudar por conta própria, lendo
notícias e escutando podcasts. Antes
eu não conhecia muito sobre o Brasil (bom, Rio e Carnaval, estereótipos, né?)
[sim, ele escreveu usando né] ou sequer
tinha considerado visitar. Mas eu sempre quis viajar pela América do Sul e,
naquela época, a UFPE era a única universidade que tinha acordos de intercâmbio
com o meu curso. Eu estudo engenharia mecânica e sou especialista em engenharia
naval.
Quando
eu me inscrevi para o intercâmbio, eu escolhi a UFPE como a minha primeira
opção e escrevi uma carta de motivação. Pena que ninguém leu. Estava tudo uma
grande bagunça porque a minha universidade e a UFPE tinham uma montanha de
documentação para resolver e o meu coordenador desapareceu e deixou tudo sem
solução. Eu e outros quatro finlandeses esperamos por vários e vários meses, e
nós já havíamos perdido as esperanças quando os cursos começaram no Recife e
nós ainda estávamos esperando por uma
confirmação para comprar as passagens e tirar os vistos. Quando recebemos a
bolsa, recebemos, então, o ok para partir. Para os brasileiros que iam para
Turku, havia o Ciência sem Fronteiras, mas a minha universidade tinha apenas
uma cooperação com a UFPE e teve que providenciar bolsas específicas para os estudantes finlandeses.
Em
setembro, em apenas uma semana, tudo estava organizado e nós tínhamos apenas
duas semanas para fazer nossas malas e nos mudar para o Recife! Duas semanas
depois, dois dias antes do meu aniversário, nos desembarcamos no Recife. Um dos
meus melhores amigos brasileiros, que eu conheci em Turku, me buscou no
aeroporto e nos ofereceu a casa para passar a noite. Tudo parecia bem, um
grande alívio, um sonho que se tornava realidade. No dia seguinte, nos mudamos
para a casa de outra amiga até nós conseguirmos achar um apartamento. Era uma
verdadeira aventura, pois minha amiga morava no Pina, numa favela. Mas eu me
senti muito seguro, ela conhecia toda a vizinhança e não tivemos problemas. Eu
curti muito o meu tempo lá. Eu ainda não entendia bem o português falado nem
conseguia falar fluentemente, mas podia me comunicar com a família da minha
amiga (só o básico). No meu aniversário, nós passamos o dia na praia de Boa
Viagem, experimentando diferentes comidas e drinks locais.
Então
a segunda-feira chegou e nós fomos para a universidade pela primeira vez. Todos
já estavam nos esperando, pois chegamos bem atrasados. Conhecemos muitos
membros da equipe e tivemos muita ajuda deles. Eles nos fizeram assinar muuuita
papelada, preencher vários formulários e nos registrar em cursos. Eu imagino
que tenha sido um tratamento especial por causa da nossa situação. Eu me
inscrevi para um curso de português avançado, mas infelizmente eu tinha outra
aula no mesmo horário. Os outros finlandeses se inscreveram no básico. Tinha
muito o que fazer nas primeiras semanas, tivemos que nos registrar na Polícia
Federal, tirar carteira de estudante, VEM, procurar apartamentos, comprar chips
brasileiros e etc. Nós tivemos tanta ajuda dos nossos amigos, colegas e
professores que eu não me lembro de ter precisado muita ajuda da Diretoria de Relações Internacionais (DRI).
Uma semana depois, um amigo achou para nós um apartamento em Boa Viagem com quatro quartos. Mais tarde, eu me arrependi de assinar o contrato de aluguel pelo semestre inteiro. Era um grande apartamento com uma ótima localização e eu realmente amei a rede. No primeiro mês, eu saía muito com os outros finlandeses e meus amigos. Mas quanto mais eu conhecia as pessoas, menos eu saía com os finlandeses. Eu preferia sair com as pessoas com quem eu pudesse praticar português. Eu saí para ver diferentes shows locais, mas saía mais para restaurantes, cafés e bares. Eu ainda não fui a nenhum cinema no Brasil!
As
aulas na UFPE eram praticamente o oposto do que eu tinha escutado dos
estudantes com os quais eu convivi em Turku. Como os outros finlandeses não falavam
português, os professores falavam algumas frases em português e depois o mesmo
em inglês. Na Finlândia, a estrutura das aulas é basicamente a seguinte: o
professor apresenta algum assunto e alguns exemplos, então os estudantes fazem
os exercícios; depois os exercícios são resolvidos no quadro branco com todos
juntos e depois tem um pequeno intervalo, depois do qual o mesmo processo é repetido. Na UFPE, a maioria das aulas são com os professores ensinando
duas horas seguidas. Claro que depende do professor, nós tivemos algumas aulas
com professores convidados da Marinha. Era muito inspirador. Eu escutei dos
meus amigos, na Finlândia, que haviam aulas assim também em Turku. Também
existem vários projetos práticos assim como na Finlândia. Eu recomendaria a
UFPE para os meus amigos, estudar lá foi uma experiência muito útil e eu recebi
muita ajuda. Eu espero que futuros estudantes estrangeiros tenham uma entrada
mais fácil com as lições aprendidas da nossa situação.
Minha
experiência com o Recife é um pouco misturada [mixed]. No primeiro mês, eu me
lembro de andar por aí com um sorriso na cara, apenas absorvendo tudo e me
interessando por tudo. Mas depois disso, eu absorvi também algumas realidades
desagradáveis da cidade. Eu senti como se eu não conhecesse realmente a cidade
por causa do medo que estava instalado em mim por todos os meus amigos e pelas
ruas. Na maioria das vezes, eu tinha medo de “ficar fora” e estava cansado de
ficar “dentro”. Para alguém que ama a natureza não tinha muito o que se fazer.
Eu não sou uma pessoa que gosta de praia e muitas vezes o Recife parecia ser
apenas uma praia. Uma morta, seca e suja praia. Eu amaria ter morado em outro lugar
que não fosse Boa Viagem, mas eu estava preso pelo contrato de aluguel.
Eu
achei os recifenses calorosos e receptivos. Eu fiz vários bons amigos durante
a minha estadia. A melhor coisa do Recife são as pessoas, sem dúvida. Nas
inúmeras vezes que eu me sentia exausto pelo perigo das ruas, eu sempre me
sentia melhor após encontrar pessoas.
Intercâmbio
no Recife não foi uma experiência real de aprendizado pra mim. Eu me senti
quase o mesmo quando estava na Finlândia. Eu realmente comecei a crescer como
pessoa durante as férias de verão, quando eu decidi viajar por um mês pelo
Chile e pela Argentina. Foi uma jornada que acabou muito rápido para mim e depois de
retornar ao Recife, eu me senti desesperançoso e deprimido, incapaz de ver nada
bom no Recife. Depois de me mudar para Belém, eu realmente me tornei um homem
mudado e levarei comigo, para a Finlândia, vários sentimentos bons quando eu
retornar em junho."
*Valter
mudou-se para Belém no fim de março, quando conseguiu um estágio na Estaleiros da Amazônia S.A. (Easa).


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