sábado, 16 de maio de 2015

Valter Vesala - Finlândia

Valter, estudante de engenharia naval da Universidade de Turku, na Finlândia, dá seu depoimento sobre os seis meses em que viveu no Recife e estudou na Universidade Federal de Pernambuco. [traduzido por mim do inglês para o português]



"Eu sou Valter Vesala, um finlandês de Turku. Bom, não originalmente de Turku, mas eu comecei a estudar lá em 2012. Aproximadamente um mês antes dos meus estudos começarem, eu decidi me inscrever para um curso básico de Língua Portuguesa. Pouco depois, eu conheci alguns estudantes intercambistas do Recife e adicionei a cidade à minha lista de possíveis lugares para fazer intercâmbio. Fiz dois níveis de Português e depois comecei a estudar por conta própria, lendo notícias e escutando podcasts. Antes eu não conhecia muito sobre o Brasil (bom, Rio e Carnaval, estereótipos, né?) [sim, ele escreveu usando ] ou sequer tinha considerado visitar. Mas eu sempre quis viajar pela América do Sul e, naquela época, a UFPE era a única universidade que tinha acordos de intercâmbio com o meu curso. Eu estudo engenharia mecânica e sou especialista em engenharia naval.

Quando eu me inscrevi para o intercâmbio, eu escolhi a UFPE como a minha primeira opção e escrevi uma carta de motivação. Pena que ninguém leu. Estava tudo uma grande bagunça porque a minha universidade e a UFPE tinham uma montanha de documentação para resolver e o meu coordenador desapareceu e deixou tudo sem solução. Eu e outros quatro finlandeses esperamos por vários e vários meses, e nós já havíamos perdido as esperanças quando os cursos começaram no Recife e nós ainda estávamos esperando por uma confirmação para comprar as passagens e tirar os vistos. Quando recebemos a bolsa, recebemos, então, o ok para partir. Para os brasileiros que iam para Turku, havia o Ciência sem Fronteiras, mas a minha universidade tinha apenas uma cooperação com a UFPE e teve que providenciar bolsas específicas para os estudantes finlandeses.

Em setembro, em apenas uma semana, tudo estava organizado e nós tínhamos apenas duas semanas para fazer nossas malas e nos mudar para o Recife! Duas semanas depois, dois dias antes do meu aniversário, nos desembarcamos no Recife. Um dos meus melhores amigos brasileiros, que eu conheci em Turku, me buscou no aeroporto e nos ofereceu a casa para passar a noite. Tudo parecia bem, um grande alívio, um sonho que se tornava realidade. No dia seguinte, nos mudamos para a casa de outra amiga até nós conseguirmos achar um apartamento. Era uma verdadeira aventura, pois minha amiga morava no Pina, numa favela. Mas eu me senti muito seguro, ela conhecia toda a vizinhança e não tivemos problemas. Eu curti muito o meu tempo lá. Eu ainda não entendia bem o português falado nem conseguia falar fluentemente, mas podia me comunicar com a família da minha amiga (só o básico). No meu aniversário, nós passamos o dia na praia de Boa Viagem, experimentando diferentes comidas e drinks locais.

Então a segunda-feira chegou e nós fomos para a universidade pela primeira vez. Todos já estavam nos esperando, pois chegamos bem atrasados. Conhecemos muitos membros da equipe e tivemos muita ajuda deles. Eles nos fizeram assinar muuuita papelada, preencher vários formulários e nos registrar em cursos. Eu imagino que tenha sido um tratamento especial por causa da nossa situação. Eu me inscrevi para um curso de português avançado, mas infelizmente eu tinha outra aula no mesmo horário. Os outros finlandeses se inscreveram no básico. Tinha muito o que fazer nas primeiras semanas, tivemos que nos registrar na Polícia Federal, tirar carteira de estudante, VEM, procurar apartamentos, comprar chips brasileiros e etc. Nós tivemos tanta ajuda dos nossos amigos, colegas e professores que eu não me lembro de ter precisado muita ajuda da Diretoria de Relações Internacionais (DRI).

Uma semana depois, um amigo achou para nós um apartamento em Boa Viagem com quatro quartos. Mais tarde, eu me arrependi de assinar o contrato de aluguel pelo semestre inteiro. Era um grande apartamento com uma ótima localização e eu realmente amei a rede. No primeiro mês, eu saía muito com os outros finlandeses e meus amigos. Mas quanto mais eu conhecia as pessoas, menos eu saía com os finlandeses. Eu preferia sair com as pessoas com quem eu pudesse praticar português. Eu saí para ver diferentes shows locais, mas saía mais para restaurantes, cafés e bares. Eu ainda não fui a nenhum cinema no Brasil!

As aulas na UFPE eram praticamente o oposto do que eu tinha escutado dos estudantes com os quais eu convivi em Turku. Como os outros finlandeses não falavam português, os professores falavam algumas frases em português e depois o mesmo em inglês. Na Finlândia, a estrutura das aulas é basicamente a seguinte: o professor apresenta algum assunto e alguns exemplos, então os estudantes fazem os exercícios; depois os exercícios são resolvidos no quadro branco com todos juntos e depois tem um pequeno intervalo, depois do qual o mesmo processo é repetido. Na UFPE, a maioria das aulas são com os professores ensinando duas horas seguidas. Claro que depende do professor, nós tivemos algumas aulas com professores convidados da Marinha. Era muito inspirador. Eu escutei dos meus amigos, na Finlândia, que haviam aulas assim também em Turku. Também existem vários projetos práticos assim como na Finlândia. Eu recomendaria a UFPE para os meus amigos, estudar lá foi uma experiência muito útil e eu recebi muita ajuda. Eu espero que futuros estudantes estrangeiros tenham uma entrada mais fácil com as lições aprendidas da nossa situação.


Minha experiência com o Recife é um pouco misturada [mixed]. No primeiro mês, eu me lembro de andar por aí com um sorriso na cara, apenas absorvendo tudo e me interessando por tudo. Mas depois disso, eu absorvi também algumas realidades desagradáveis da cidade. Eu senti como se eu não conhecesse realmente a cidade por causa do medo que estava instalado em mim por todos os meus amigos e pelas ruas. Na maioria das vezes, eu tinha medo de “ficar fora” e estava cansado de ficar “dentro”. Para alguém que ama a natureza não tinha muito o que se fazer. Eu não sou uma pessoa que gosta de praia e muitas vezes o Recife parecia ser apenas uma praia. Uma morta, seca e suja praia. Eu amaria ter morado em outro lugar que não fosse Boa Viagem, mas eu estava preso pelo contrato de aluguel.

Eu achei os recifenses calorosos e receptivos. Eu fiz vários bons amigos durante a minha estadia. A melhor coisa do Recife são as pessoas, sem dúvida. Nas inúmeras vezes que eu me sentia exausto pelo perigo das ruas, eu sempre me sentia melhor após encontrar pessoas.

Intercâmbio no Recife não foi uma experiência real de aprendizado pra mim. Eu me senti quase o mesmo quando estava na Finlândia. Eu realmente comecei a crescer como pessoa durante as férias de verão, quando eu decidi viajar por um mês pelo Chile e pela Argentina. Foi uma jornada que acabou muito rápido para mim e depois de retornar ao Recife, eu me senti desesperançoso e deprimido, incapaz de ver nada bom no Recife. Depois de me mudar para Belém, eu realmente me tornei um homem mudado e levarei comigo, para a Finlândia, vários sentimentos bons quando eu retornar em junho."

*Valter mudou-se para Belém no fim de março, quando conseguiu um estágio na Estaleiros da Amazônia S.A. (Easa).






Nenhum comentário:

Postar um comentário